01 / O conhecimento de quem se torna visível?
Para além de perspectivas estreitas, enviesadas e a-históricas
Em 2008, Arnett mostrou que 96% dos estudos psicológicos, comparativos sociais e de ciências comportamentais nos seis maiores jornais acadêmicos de psicologia vieram de países WEIRD (em português: OEIRD, Ocidentais, "Educados", Industrializados, Ricos, Democráticos), representando apenas 12% da população mundial. Mais especificamente, 70% das amostras e autores vêm dos Estados Unidos, cerca de 5% da população mundial.
Análises recentes (e.g., Thalmayer et al., 2021) encontraram um leve aumento na diversidade cultural: em vez dos 95% anteriores, agora essas pesquisas negligenciam por volta de 89% da população mundial. Desde então (e mesmo antes disso), têm se mostrado que esse tipo de subrepresentação do Sul Global é recorrente não apenas na psicologia, mas continua sendo o caso na vasta maioria das disciplinas acadêmicas.1Para uma boa introdução a essas pesquisas iniciais e alguns dos desenvolvimentos mais recentes, veja:
M.S. Rad, A.J. Martingano, & J. Ginges (2018), “Toward a psychology of Homo sapiens: Making psychological science more representative of the human population”, Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. 115 (45) 11401-11405.
Para mais, veja também:
Henrich J, Heine SJ, Norenzayan A., 2010 “The weirdest people in the world?” Behavioral and Brain Sciences. 2010;33(2-3):61-83.
Hamer et. al., 2026. “Beyond WEIRD societies: Global social identifications across 45 countries and their socio-cultural and economic predictors. Political Psychology, 47, e70134.
Nosso intuito aqui não é apenas trazer à tona mais uma vez que precisamos de mais perspectivas diversas. Sim, precisamos, mas para além disso, sabemos pela nossa experiência direta que respostas a muitas das aflições, necessidades e desafios da sociedade moderna já existem e podem ser encontradas em comunidades não-WEIRD. No entanto, dadas as estruturas, sistemas e incentivos em vigor, bem como a longa história de discriminação, extração e repressão que enfrentam, essas contribuições permanecem subfinanciadas, sub-representadas e pouco reconhecidas.
Isso significa que, embora tenhamos uma abundância de práticas, saberes e formas de ser que buscam afirmar a vida, como aquelas sendo evidenciadas pela Global Tapestry of Alternatives, por exemplo, elas são sistematicamente ofuscadas, permanecendo marginais ao poder e à discussão pública, às vezes mesmo dentro dessas comunidades em si.
Portanto, com nosso trabalho, buscamos torná-las mais visíveis e perguntar:
Que tipos de pesquisa e produção cultural precisam de mais espaço para emergir? Como podemos apoiar as pessoas que estão fazendo isso, e como podemos apoiar a criação de caminhos para que seus trabalhos sejam publicados e compartilhados?
02 / Como podemos fazer sentido da complexidade?
Navegando uma ecologia da informação fragmentada e inesgotável
É impossível fazer sentido de toda a informação disponível para nós, seja através do mundo online ou da nossa realidade física imediata, isso sem falar das infinitas perspectivas e interpretações conflitantes sobre tais informações. Naturalmente, precisamos delegar, em algum nível, nossos processos de julgamento e compreensão da realidade por meio da confiança relacional. Historicamente, fizemos isso sobretudo em grupos menores de pessoas, muitas vezes nas nossas comunidades locais. Hoje, essa confiança (e desconfiança) relacional está espalhada por instituições, sistemas, culturas e povos de origens diversas.
Diante da ampla gama de informações e fontes disponíveis (e indisponíveis) para nós, usamos vários critérios para determinar o quanto cada uma é confiável: o quanto sabemos sobre aquele tema e aquela fonte, suas relações, os métodos que usa, suas visões de mundo, o quanto conhecemos de sua história, os sistemas e incentivos em que estão inseridas, etc.
Nos campos da pesquisa acadêmica e para-acadêmica, essa sobrecarga de informação muitas vezes se reflete em textos densos e infindáveis, centenas de citações, linguagem especializada e mais, criando um campo de discussão que apenas uma pequena elite consegue de fato compreender, engajar e contribuir.
Um exemplo: citações acadêmicas+
Citações no nível de um livro ou artigo inteiro costumam ser amplas demais para o público em geral ou para quem está chegando a um campo. Elas colocam sobre o leitor a carga cognitiva de inferir as relações por trás delas. Centenas de referências ainda podem nos deixar incapazes de compreender uma posição específica, sua história, as relações em torno dela ou a ecologia de informação em que ela se situa.
Por exemplo, ao chegar pela primeira vez a um campo, seria muito útil conhecer e tornar visível tanto a) como uma fonte se relaciona com uma afirmação quanto b) a quem uma pessoa ou organização está conectada, incluindo o tipo e a força dessas afiliações.
A partir disso, podemos dizer que há pelo menos duas camadas de contexto em uma citação, muitas vezes nem sequer visíveis:
1) A orientação de uma citação
Ela apoia, se opõe, aborda, explica, complementa ou leva a algo?
RelacionadaApoiaSe opõeAbordaÚtilLeva aExplicaComplementa
2) A rede social em torno dela
A que a pessoa ou organização está afiliada? Qual é a natureza e a força da relação? Que contexto isso traz para a forma como compreendemos seu trabalho?
Nós buscamos, portanto, facilitar o aprendizado e a navegação da complexidade através de alguns princípios:
1. Tornar os ecossistemas de informações fragmentados em que vivemos mais visíveis.
2. Tornar recursos mais acessíveis ao destacar formatos multimídia, que engajam múltiplos sentidos (imagens, áudio, vídeo, artes, práticas, etc).
3. Tornar linguagens obscuras mais legíveis através de diferentes práticas e padrões de design de conhecimento que reduzem a sobrecarga cognitiva e tornam a confiança relacional mais explícita.